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Nasce um pequeno grande bailarino

Nasce um pequeno grande bailarino

Apoiado pelo pai, Matheus Portela Ramos se tornou a mais jovem promessa do balé clássico, com apenas 12 anos

Se o pequeno príncipe fosse brasileiro, ele se chamaria Matheus Portela Ramos e moraria em Matozinhos, na região metropolitana de Belo Horizonte, antes de sair explorando outros planetas. No auge de seus 12 anos, ele é considerado a mais jovem promessa do balé clássico e foi o único aluno do Palácio das Artes a passar na primeira fase do teste de seleção para ingressar no Ballet Bolshoi, a companhia russa de dança mais famosa do mundo.

Por isso, o primeiro planeta a ser explorado pelo pequeno bailarino é Joinville, em Santa Catarina, onde o Bolshoi mantém a sua única escola fora da Rússia. É lá que ele precisa estar em outubro para participar da segunda fase da seleção. Se passar, seu futuro – formação, ensino e despesas – será custeado pela companhia pelos próximos oito anos. E, como pensa além das estrelas, ele também sonha em explorar a Rússia algum dia, o “planeta do balé”.

No entanto, diferente da obra de Sain Exupéry, em que o principezinho deixou seu bem mais precioso – a rosa – para viajar, Matheus quer levar com ele seus pais. Mas o aposentado José Geraldo Ramos, 60, pai e maior incentivador do pequeno bailarino, pretende dar o universo para o filho de qualquer jeito. Ainda que, para isso, o rebento precise partir sozinho e deixar os pais em uma redoma de vidro.

O mais jovem da sua turmaCorpo, dança e outras artes Perfume no Teatro Sesi Contagem

“Eu vou tentar ir com ele. Se ele passar em outubro e tiver que ir em fevereiro pra morar, quando começam as aulas, vou fazer de tudo pra conseguir um barraco lá pra morar com a minha mulher, arrumar um bico e ficar por conta dele. Vou me sacrificar para conseguir. Mas dizem que o custo de vida lá é mais alto, né? Se não der mesmo, ele vai sozinho, mas vai estar feliz porque vai estar realizando o sonho dele”, explica.

Como a mãe do pequeno trabalha o dia inteiro como empregada doméstica, o pai assumiu a missão de acompanhar o bailarino e incentivar sua carreira, apesar de todos os comentários maldosos que, às vezes, tem que escutar na cidadezinha onde mora. “Ele ficava chateado quando os colegas ficavam fazendo brincadeiras preconceituosas e quis até desistir no começo, mas eu falei para não ligar pro que os outros dizem e focar no objetivo dele”, diz.

O orgulho que Ramos sente de Matheus é recíproco. “Alguns colegas faziam piadas. Já sofri muito bullying porque eles falam que ‘viado’ é que faz balé. Eu pensei em desistir, sim, mas aí meu pai começou a conversar comigo e eu parei de dar ideia pra isso, porque o que importa é o meu pensamento. O que os outros dizem não tem mais importância. Eu sou muito feliz fazendo balé”, relata.

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Mas, como crianças geralmente apenas repetem o que ouvem dos adultos, bastou um pequeno vislumbre do sucesso de Matheus para que elas também procurassem aulas de balé. “Depois que meu pai levou lá na escola um banner meu e um DVD de uma apresentação que eu fiz, sete meninos que ficavam me zoando também começaram a fazer balé”, se diverte.

Mal sabiam eles que balé, especialmente o clássico, não é para qualquer um. Tem que ter talento, como explica a coordenadora do Centro de Formação Artística (Cefar) do Palácio das Artes, Joana Wanner.

“O Matheus já está no quarto ano de balé e, desde que apareceu, notamos o quanto é talentoso, sensível e habilidoso. Além disso, é muito jovem e tem o físico ideal. E o balé clássico depende muito desse conjunto de coisas, por isso, este é o momento certo para ele investir nessa carreira. Esta é a hora dele. Mas o Matheus é preguiçoso, às vezes, e no balé a gente precisa ter muito disciplina. Acho que ele cresceu muito nesse sentido aqui, por isso acredito que o método russo de ensino vai ser ótimo pra ele”, afirma.

Antes de tudo, amor. A vida de Matheus não é um mar de rosas, financeiramente falando. A casa de sua família em Matozinhos é simples, miúda, e o petit bailarino dorme na sala. Mas, apesar das dificuldades, ele mantém uma fortuna em forma de família. E o pai José Geraldo faz questão de mostrar isso a ele, todos os dias.

“Eu morava em uma roça em Juiz de Fora e vim pra Belo Horizonte na década de 1970. Não tinha pais nem instrução, mas me dei como missão ‘fazer a vida’ na cidade grande em cinco anos, ou então voltaria para roça. E olha a sorte que eu tive: em cinco anos, aprendi a ler e a escrever, aprendi uma profissão, me casei e tive filhos. Quando cheguei, há mais de 40 anos, os ônibus tinham uma cor de acordo com os bairros para onde iam. E eu escolhia para onde ia pela cor do ônibus, porque não sabia ler. Às vezes eu brinco com o Matheus, quando trago ele para as aulas de balé aqui no Palácio: tá vendo, filho? Hoje você tem uma sorte que eu não tive, vem todo dia para Belo Horizonte de carro, na mordomia”, conta.

Matheus assente e reconhece a sua fortuna. Para recompensar, ele faz planos de, no futuro, quando for um bailarino rico e famoso, retribuir tudo o que os pais fizeram por ele. “Eu tenho muito orgulho do meu pai. Eu vejo o quanto ele está investindo em mim e em uma oportunidade que meus irmãos não tiveram. Aí eu falo com ele que, quando tiver um emprego e a minha casa, eu vou recompensar por tudo o que ele fez por mim. Tem um carro que ele acha muito bonito, o Hyundai Veloster, aí eu falo com ele: pai, não se preocupa não que um dia eu te dou um desse. Com meu dinheiro do balé”, brinca.

Talvez ele não saiba, mas possante nenhum seria capaz de deixar José Geraldo mais realizado do que o sorriso suado do pequeno bailarino quando deixa as aulas de balé e vai ao seu encontro. “Um orgulho imenso. É o que eu sinto. Principalmente nas apresentações de fim de ano, porque todo mundo no final vem procurar quem são os pais do Matheus. O aperto que a gente passa o ano todo, a rotina diária de levá-lo a Belo Horizonte para as aulas, esperar e trazê-lo de volta a Matozinhos, tudo isso volta pra gente no fim do ano. Tudo isso vale a pena”, declara, emocionado.

Da redação – Com O tempo

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